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Ana Maria Machado

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Autor: Alfredo Cunha

Ana Maria Machado (Lídia Jorge, Os Memoráveis)

Ana Maria Machado é a protagonista e narradora do romance Os Memoráveis, de Lídia Jorge. Publicado em 2014, é uma narrativa sobre a Revolução dos Cravos e as personagens que atuaram diretamente no momento histórico e outras que de maneira anônima também contribuíram para a construção da história. As memórias e relatos estão dispostos em três partes que constituem a diegese: “A fábula”; “Viagem ao coração da fábula” e “Argumento”. Portuguesa, jornalista, atuante em cenários de conflitos territoriais e identitários, a jovem, filha do também jornalista António Machado e da atriz belga Rosie Honoré Machado, deixara Lisboa para estagiar na CBS, rede de televisão dos Estados Unidos, e não voltara para Portugal. É a nacionalidade portuguesa o ponto de partida para o retorno, ainda que breve, à terra natal, por conta de um programa sobre as grandes revoluções do século XX, A história contada, composto de episódios que apresentariam a história dessas revoluções. O desafio é lançado pelo seu editor, Robert Peterson, e por um antigo embaixador, padrinho de Bob, convencendo-a de que o retorno a Portugal era uma grande oportunidade de revisitar a história portuguesa e uma das mais interessantes revoluções que já aconteceram. Ao enunciarem a ideia e o que se passa no desejo de revisitação, propõem uma visão da história: “Olhe que por vezes, embora escassas vezes, a história é também um sonho agradável, e tão apaziguante pode ele ser que vale a pena uma pessoa ao acordar tentar por todos os meios guarda-lhe a imagem para que não se esvaia.” (Jorge, 2022:11). Miss Machado aceita o desafio e parte para Lisboa.

Ao chegar a Lisboa, Ana Maria monta a sua equipe de trabalho com dois ex-colegas de faculdade: Margarida Lota e Miguel Ângelo eram, com ela, os três românticos do grupo da faculdade. “Os três queríamos ser repórteres de guerra, os três corríamos por ruas e avenidas quando havia algum rebuliço, sonhando com a reportagem dos grandes conflitos.” (57). A partir desse momento, o tempo da revolução é revisitado, através de uma foto encontrada pela jornalista na casa de seu pai. A foto, escondida entre tantas outras coisas do passado, chamada de “Memories”, por Rosie Honoré, revelava figuras importantes da luta pela democracia portuguesa. O registro, que a princípio seria da união entre António e Rosie, se tornara um importante artefato histórico. “Como nunca se tinham casado, aquela era a sua fotografia de casamento” (51). Um jantar, num agradável restaurante lisboeta, na noite de 21 de agosto de 1975, em que personagens históricos foram os convivas do casal.

O retorno a Portugal trazia para Ana Maria Machado, a Machadinha, uma revisitação para além das páginas da história: da sua própria narrativa como filha de António Machado, dos conflitos com o pai, da ausência da mãe que os abandonara quando a menina tinha doze anos. A mãe que ela nunca mais voltaria a ver por desejo próprio. Voltava a um país e a um tempo que já não conhecia mais: “encontrava-me em um face de um tempo longínquo, recebia mensagens de um país distante de que havia prescindido a ponto de, ultimamente, chegar a duvidar da existência real do seu presente, quanto mais do seu passado” (37).

As memórias de Ana Maria se alinham à memória de um processo de redemocratização do país e de libertação dos próprios fantasmas. Assim como Margarida e Miguel, Ana era nascida no pós-25 de abril. Cada novo entrevistado é uma associação ao passado e às lembranças da mãe. A história coletiva é composta de histórias particulares. Embora as duas histórias estejam unidas na biografia de Ana, ela prefere esquecer. Ao recuperar as imagens e vozes dos heróis do restaurante Memories, Ana convive com o drama pessoal de António Machado. Compartilhavam o amor pela profissão, mas dividam-se na forma como percebiam seus próprios movimentos cotidianos, sentimentais e como sujeitos da história.

Retida em Lisboa por causa de uma broncopneumonia, Ana é cuidada pelo pai e acompanha sua preocupação. Por uns dias é estabelecida uma trégua. Já ali era a menina doente, não a jornalista nômade em oposição ao pai sedentário. Era ainda a menina doente e sem mãe e a jornalista que remexia o passado, tirava o pó das histórias e buscava um elo, uma ponte entre todas as narrativas particulares das figuras da foto. Agora, uma outra Ana adulta ficava para cuidar do pai, e se deparava com uma nova história a ser contada: teria de ligar para a mãe, falar da saúde física e mental do pai. Era, portanto, o tempo de entrar no coração da sua própria fábula.

Eduardo Lourenço, no texto “Literatura e Revolução”, para a revista Colóquio/Letras, parte de uma ideia interessante sobre as revoluções para iniciar a discussão acerca da Revolução dos Cravos. Para o ensaísta, as revoluções se alimentam no imaginário ativo da população. O movimento revolucionário nasce do sonho e da potência histórica dos fatos. Essa é a natureza da revolução de 1974 que rompe com um período ditatorial de quase quarenta anos. Fundamentado no desgosto popular com a guerra colonial, com a censura promovida pela P.I.D.E., o Movimento das Forças Armadas, principalmente dos capitães do exército português, organiza uma revolta deflagrada por uma canção e sem derramamento de sangue. O dia 25 de abril de 1974, data fulcral da Revolução dos Cravos, é o marco de um novo tempo no século XX português. A sua história é a de homens e mulheres que viveram de diferentes formas a expectativa da liberdade; depois, a construção de um país democrático perpetua-se na literatura portuguesa até o século XXI. Ainda existem muitas perguntas, ideias, possibilidades de entendimento da história de Portugal, dos agentes históricos e das diversas narrativas particulares que descendem e se ramificam a partir dessa mesma grande história.

Referências

JORGE, Lídia (2022). Os Memoráveis. São Paulo: Leya.

LOURENÇO, Eduardo (1948). “Literatura e Revolução”, in Colóquio/Letras, n.º 78, Mar., pp. 7-16.

Gabriela Silva