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JOSÉ DE OLIVEIRA

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JOSÉ DE OLIVEIRA (Júlio Lourenço Pinto, O Senhor Deputado)

Personagem principal e que dá título ao romance O Senhor Deputado (1882), José de Oliveira é uma figura que se desenvolve com base num padrão naturalista. O autor da obra, Júlio Lourenço Pinto, foi um dos grandes defensores do naturalismo, tendo escrito estudos críticos que vieram a compor o livro intitulado Estética Naturalista (1884), no qual apresenta as suas considerações acerca desse movimento artístico. E é também no próprio prefácio de O Senhor Deputado que o escritor dá a ver a sua defesa do romance realista, “[...] espelho fiel que reproduza o painel da vida e que pelos reflexos de uma crítica austera ative a evolução do espírito humano, impulsionando-o para a conceção de um estado social mais perfeito.” (Pinto, s.d.: XVIII).


          José de Oliveira é o médico mais afamado da vila de Z... Filho de trabalhadores remediados, torna-se médico por insistência do pai, Manuel de Oliveira, sendo que o movimento de caracterização de Oliveira parte de uma apresentação inicial da figura de seu pai e do processo de decadência deste, pois “[...] sua liquidação foi uma queda estrondosa das alturas da ambição a que se guindara [...].” (Pinto, s.d.: 80). Assim, a ambição que causa a ruína do pai é também o que caracteriza a personagem José de Oliveira, num movimento de configuração da hereditariedade, de um determinismo próprio do processo de composição naturalista.


          Assim, aspirando a uma existência de burguês e à ociosidade que essa existência permite, Oliveira começa a realizar tais ambições quando é nomeado para o partido da vila de Z..., ao tomar como seu padrinho o visconde de Canaride. A partir desse feito, José de Oliveira passa a ser reconhecido na vila e conquista uma certa emancipação que o permite avolumar-se, dilatar o ventre, tornar-se um burguês. Mas “a fortuna era o ambiente que lhe punha em fermentação os vícios congénitos, e lhe aquecia as suas atividades transbordantes, mas sempre estéreis, aquecendo-lhe o cérebro até o ponto de ebulição, sem produzir nada de útil.” (Pinto, s.d.: 84-85). Assim, Oliveira forma um conluio com o Dr. Seixas para opor-se ao visconde de Canaride e seu candidato, Amândio, na eleição para deputado. Com a vitória na eleição, Oliveira torna-se a figura mais comentada da vila, sendo exaltado por uns e hostilizado por outros. E é quando ele planeja um novo meio de ascensão, o casamento com a solteirona rica e adoentada D. Sabina, o que lhe dá ainda mais poder e importância na vila.


          Contudo, “a inactividade, a satisfação gradual das ambições estimulava-lhe outros apetites.” (Pinto, s.d.: 248). É então a presença da sobrinha de D. Sabina, Zulmira, a qual abriga-se na casa da tia para afastar-se do marido Amândio (que após ser levado à falência pela esposa refugia-se no álcool), que ativa mais uma vez as ambições de Oliveira. Assim, o convívio com Zulmira exalta nele uma excitação e a esperança de que a esposa, D. Sabina, morra para que ele possa casar-se com a sobrinha que havia perdido o marido; assim se desestabiliza a sua personalidade. Todavia, seus planos de casamento não são compartilhados por Zulmira e a situação se agrava quando Francisco de Vilhena, com quem ela vivera um episódio amoroso em Lisboa, se instala na vila de Z... e a moça passa a ter um relacionamento com este, desprezando as investidas de Oliveira. A partir desse acontecimento, Oliveira é levado à prostração e ao desequilíbrio que o definem aos olhos dos habitantes da vila de Z..., no final da narrativa.


          Assim, a atração que sente por Zulmira advém do desejo físico, desse impulso animalesco que a fortuna lhe inspirava e que a hereditariedade lhe havia imposto, fatores que o encaminham para um processo de decadência: “– Senão veja como ele começou a resvalar desde que deixou a clínica e se esterilizou na ociosidade! Ficou inerme, à mercê de todas as fatalidades do temperamento e das hereditariedades.” (Pinto, s.d.: 328).


          Em resumo: José de Oliveira é a personagem principal do romance O Senhor Deputado, dividindo o foco da narrativa com Zulmira, personagem que serve de elemento deflagrador do seu temperamento e o conduz à decadência final. Nesse sentido, o narrador heterodigético estabelece um processo de focalização da personagem, caracterizando o desenvolvimento do seu conflito interno, assim como da sua ascensão e queda social que se dão a partir de tal conflito.

 

Referência:    

PINTO, Julio Lourenço. (s.d.). O Senhor Deputado: Cenas da Vida Contemporânea. 2.ª edição, Porto: Livraria Universal de Magalhães & Moniz – Editores.

Bianca do Rocio Vogler