Fanny Owen é a personagem que dá nome ao romance de 1979, de Agustina Bessa-Luís, inspirado num caso verídico do século XIX (porém com grande liberdade criativa por parte da escritora). Fanny seria um dos vértices de um triângulo amoroso e o motivo da desavença entre dois amigos: José Augusto Pinto de Magalhães, o Morgado do Lodeiro, e Camilo Castelo Branco, o renomado autor. O romance, portanto, realiza um processo de figuração de uma personagem real, criada no limiar entre os relatos históricos e a elaboração literária.
Fanny Owen é filha de um coronel inglês, curiosamente autor de um livro histórico – O Cerco do Porto (1915) –, casado com D. Maria Rita Rocha Pinto, outrora uma dama na corte de Carlota Joaquina, e irmã de Maria e de mais dois rapazes (Correia, 2019: 8). A relação entre Maria e Fanny é particularmente relevante para o romance, uma vez que é pela diferença entre elas que a tragédia de Fanny principia. Inicialmente, José Augusto faz o cortejo à Maria, no entanto, após repetidas visitas à residência das Owen, o morgado passa a interessar-se por Fanny – por quem Camilo tinha grande afeição. Fanny retribui a estima de José Augusto, ainda que o amasse “como a um irmão” (Bessa-Luís, 2019: 120), o que terá consequências funestas, nos termos que Camilo usara para descrever o próprio amigo e o drama que encetou (Villa-Moura, 1917: 11).
Sua descrição pode ser adequada ao arquétipo da mulher-anjo, apresentada como uma figura de pureza quase infantil: “Os olhos muito afastados e a testa abaulada, de criança, davam-lhe um ar passivo e comovedor. O nariz curto, de asas estreitas, a boca pequena” (81), e a quem José Augusto obstinadamente chamava anjo (89). Estas características vêm, porém, acompanhadas de um perfil triste e solitário: “Maria era mais bonita; mas mais inepta para a desgraça, portanto menos nobre” (50), enquanto Fanny era “a mais sozinha das mulheres e por isso a mais irresistível” (74).
Estes aspetos reforçam uma dinâmica transficcional de figuração pautada na imagem da heroína romântica, com dois referenciais explícitos: Byron e Goethe. José Augusto é um grande leitor de Lord Byron (31) e o seu interesse amoroso recai sobre mulheres que personifiquem a heroína byroniana, cuja inteligência e sensibilidade estão atreladas à lealdade, à solidão, à miséria amorosa e ao seu ar de anjo caído (cf. Thorslev, 1962: 148-152). Camilo, por sua vez, evoca Os Sofrimentos do Jovem Werther (1774), para espelhar o seu próprio amor impossível: “[Camilo] ligara Fanny à impressão recebida, ao arquétipo que é Charlotte, virgem prudente, de amor tão casto quanto suspenso” (81).
O enredo romântico tem seu ápice no episódio da fuga dos dois amantes – e no seu resultado trágico. Incitado pela própria Fanny, que declara não suportar os maus-tratos da família, José Augusto rapta-a para viver com ele no Lodeiro. Ao descobrir, no entanto, que a amada houvera trocado correspondências com outro senhor (de acordo com Camilo, um amigo espanhol; de acordo com o narrador do romance, com Camilo), ofende-se e decide que, apesar de casar com ela, “não lhe chamaria nunca esposa” (156). Isto viria a ser confirmado após o precoce desaparecimento – por uma “típica tuberculose chamada «de abandono»” (184) – de Fanny, que teria morrido virgem (1864: 142). Destaca-se o facto de que a morte da personagem, por uma doença pulmonar causada pela fragilidade e pela tristeza, dialoga diretamente com outras personagens de Camilo Castelo Branco, como Teresa de Amor de Perdição (1862), e dá continuidade a uma tradição oitocentista que associa tal doença à sensibilidade e ao sofrimento da alma (cf. Sontag, 1978).
No entanto, apesar da sua caracterização angelical, o narrador heterodiegético cria pequenas fraturas na tipicidade da personagem. Fanny é também retratada como uma mulher amargurada, tomada de ciúmes, e ciente de que era idealizada: “Se caí, aos teus olhos, não tive culpa. Não me elevasses tanto. [...] e se achas que me vulgarizei é porque já era vulgar” (173-174). O sofrimento alimentado pelo isolamento da personagem, por sua vez, faz com que ela, gradualmente, deixe de ser parte de um coro de “anjos assexuados de papelão” e passe a ser “uma mulher temível” (174), invejosa da liberdade do seu marido (173). O narrador cria até mesmo dúvidas sobre o mito da sua castidade, relatada por Camilo em No Bom Jesus do Monte, mas nunca registada pelo médico que lhe teria feito o testemunho (182), além de questionar o motivo de Fanny ter destruído várias páginas do seu diário antes de morrer (183).
Finalmente, em outro movimento transficcional, o romance Fanny Owen foi adaptado para o cinema por Manoel de Oliveira com o filme “Francisca” (1981), com Tereza Meneses no papel de Fanny.
Bibliografia
Bessa-Luís, Agustina (2019). Fanny Owen. Lisboa: Relógio D’Água.
Castelo Branco, Camilo (1862). No Bom Jesus do Monte. Porto: Em Casa de Viúva Moré - Editora.
Correia, Hélia (2019). Os Todo-Poderosos—Prefácio. In Fanny Owen. Lisboa: Relógio D’Água.
Sontag, Susan (1978). Illness as metaphor. New York: Farrar, Straus and Giroux.
Thorslev, Peter L. (1962). The Byronic Hero: Types and Prototypes. Minneapolis: University of Minnesota Press.
Villa-Moura, Visconde de. (1917). Fanny Owen e Camillo. Porto: Edição da Renascença Portuguesa.
Publicado a 13-05-2026