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Ellen Rassmunsen

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Autor: Maria Manuel Lacerda

Ellen Rassmunsen (Mário Cláudio, Tiago Veiga, Uma Biografia; Embora eu Seja um Velho Errante)

Ellen Rassmunsen dos Anjos é uma das personagens mais curiosas e relevantes de Tiago Veiga. Uma Biografia (2011), e de Embora Eu Seja Um Velho Errante (2021).

Segunda esposa de Tiago Veiga, natural de Kilrush, na Irlanda, Ellen nasceu em 1898 e viria a morrer no Caramulo, a 11 de julho de 1944, ficando “sepultada em campa rasa no cemitério da estância sanatorial” (Cláudio, 2011: 354), vítima de tuberculose.

Trava conhecimento com o “grande suicida” no verão de 1933, em Kilrush, em “plena Feira do Cavalo” (272), sendo, na verdade, Ellen quem convida Veiga para beber uma cerveja num pub. No que diz respeito à figuração da personagem nos seus traços físicos, sabemos que era “ligeiramente mais alta” que Tiago Veiga. No entanto, o “Auto-Retrato” de Ellen presente na obra de 2011 revela uma jovem de tez morena, olhos rasgados e lábios pequenos, o que complementa, em diálogo intermedial, o que não é descrito pela linguagem verbal. Já no romance de 2021, na segunda parte da obra que corresponde ao diário de Ellen Rassmunsen, encontramos um retrato da personagem aos 33 anos, “a partir de uma fotografia da Photomaton” (91). Assim, ambas as imagens ativam mecanismos retórico-cognitivos que ultrapassam a soberania da palavra. Desta forma, o narrador exclui-se de descrições físicas, apostando no comportamento e nas ações de Ellen, sem prejuízo de alguns pormenores sugestivos para o desenvolvimento da relação de ambos, como o “foulard cor de pinhão que ela usava ao pescoço”, ou ainda a “ténue linha de transpiração sobre o lábio daquela inverosímil companheira” (273).

No pub onde entabulam conversa, Tiago Veiga apercebe-se da “popularidade da sua recém-conhecida, (…) ali, encostada ao balcão no fato de montar algo batido (…). Filha de dinamarquês e irlandesa entretanto morta” (273), Ellen vive com o pai e com o irmão, criadores e negociadores de cavalos. A ligação aos cavalos é importante na medida em que ficamos a saber, sempre pelo olhar de Veiga, que Ellen Rassmunsen é pintora. Não por acaso, a primeira obra que revela ao poeta é Os Cavalos de Danaan, que figuram como capa da Biografia.

Os jovens amantes casar-se-iam a 7 de fevereiro de 1934, tendo Tiago Veiga escondido da irlandesa o primeiro matrimónio com Jeanne Chazot. Com a entrada de Ellen Rassmunsen na vida do poeta dá-se uma transformação artística e interior na vida dos dois, refletindo-se numa fase de intensa e criativa produtividade. “É curioso notar que será durante os 10 anos que dura o casamento (…), que Veiga trava conhecimento com uma série de intelectuais ingleses e portugueses” (Vieira, 2024: 126). Em julho de 34, durante a viagem da lua de mel, o casal conhece Yeats em Dublin (Cláudio, 2011: 279); mais tarde, em julho de 36, Bernardino Machado em La Guardia (287) e logo depois Aquilino Ribeiro (288); em 1938, Teixeira de Pascoaes (303).

Entre 1935 e 1940, Ellen viverá na Casa dos Anjos em Paredes de Coura, nunca se adaptando totalmente ao meio, ficando conhecida como “o espantalho” (283) e “espantalho dos pardais” (305). É durante esses anos, de resto, que dá à luz Tomás Rassmunsen dos Anjos, filho único do casal, que viverá abandonado pela casa, enquanto os progenitores vivem afoitos ora na arte de escrever, ora no manejo dos pincéis.

Em 1939, após a escrita de Triunfo e Glória do Arcanjo São Miguel de Portugal, Ellen não só traduz a peça para inglês – remetendo-a a Georgie Yeats, Edith Sitwell e Ezra Pound (315) –, como também realiza uma pintura, entretanto desaparecida, para complementar o texto.

Ellen contrai tuberculose durante as suas longas estadas no Sanatório de Paredes de Coura, após ter passado semanas a fotografar defuntos na ala mortuária, o que evidencia o seu carácter difuso, fantasmático e o gosto pelo grotesco, o mitológico associado à morte, mas também às histórias do seu país ancestral, revelando uma mulher de sensibilidade exacerbada, capaz das descrições mais sensíveis, plasmadas no diário: “atravesso o rio, muito sossegada, numa barquinha de cristal, percorro uma planície de névoas, montada num cavalo branco, encontro os meus heróis e as minhas fadas, sinto-me como uma menina, sem cansaço algum, a pintar um quadro de maravilhas, como jamais pintei” (Cláudio, 2021: 106-107).

Já na terceira parte de Embora Eu Seja Um Velho Errante, e em registo autoficcional, Mário Cláudio dá-nos conta de que “eminência maior na vida de Tiago Veiga, Ellen Rassmunsen mereceria, e só por si, uma biografia cuidadosa e motivadora, ou até mesmo de intenção apologética” (159), uma vez que “a irlandesa garantiria o crescimento de qualquer homem que dela se abeirasse” (160).

 

Referências

Cláudio, Mário (2021). Embora Eu Seja Um Velho Errante. Lisboa: D. Quixote.

______ (2011). Tiago Veiga. Uma Biografia. Lisboa: D. Quixote.

VIEIRA, José (2024). “As relações não são de papel. A liquidez dos afetos em Tiago Veiga, ou do homem sem vínculos”, in: Vieira, José (Org.). A Verdade é de Papel. Ensaios para Tiago Veiga. Lisboa: Tinta da China, pp. 109-132.

[publicado a 8-1-2026]

José Vieira