Maria Teresa de Albuquerque e José/Maria Clara são personagens sobreviventes do naufrágio que acomete um navio escravagista clandestino na costa brasileira, em meados do século XIX, célula dramática do romance Não se pode morar nos olhos de um gato (1ª ed. 2016), de Ana Margarida de Carvalho. A figuração das personagens nesse romance entrelaça-se, fundamentalmente, às dinâmicas temporais da narrativa, à organização da intriga em três momentos principais: a condição das personagens no navio, relatadas pela voz e o olhar excêntricos de uma santa de pau, a Nossa Senhora de Todas as Angústias; a situação das personagens como náufragas numa espécie de praia intermitente, narrada por uma voz heterodiegética e multifocal; a formação das personagens acessada por longas analepses, que mesclam a visão onisciente do narrador heterodiegético com as perspectivas das próprias personagens. Essencial também para a construção de Teresa e José/Maria é o modo como atuam e ganham sentido numa “rede de hierarquias, funções e valores, interações e comunicações, similaridades e contrastes, atração e rejeição” (Eder: 2014, 89).
No primeiro capítulo, percebemos já as diferenças e semelhanças entre a “Fidalga” e o “Criado”, ainda não nomeados pela santa, que surgem em meio ao horror do navio, com seu porão de escravizados famintos e machucados e sua tripulação violenta. Enquanto é o criado “do capataz”, a fidalga tem “uma espécie de séquito que a escolta”, o “capelão que lhe ampara os receios”, “lhe aplaca a alma” e a ama preta que “amamenta e carrega o filho” (Carvalho: 2021, 18) – a ideologia católica por um lado, o trabalho escravo pelo outro. A fidalga “a apelar ao capitão, solicita, requer, ordena” (18); dá pontapés, maldiz a tripulação e ameaça com chicotadas a ama de leite. O criado, a mando do capataz, está sempre de “chicotes prontos” para impor o terror “às criaturas sem deus” (21).
Resta nas duas personagens, porém, um lampejo de sensibilidade que as aproxima: a função maternal. A luz dos olhos da fidalga é o seu menino, pelo qual reza e pede proteção aos Céus. Nos porões do navio, um “menino preto”, no instinto de sobrevivência, agarra-se às pernas do criado “com dedos de ventosas” (22) e ganha os seus “desvelos maternais” (23). Esse paralelo recebe novos contornos no momento do naufrágio, porque o criado consegue salvar a criança, e a fidalga, numa reversão de seu poder, vê o filho afundar no colo da ama que, assim, vinga-se dos castigos recebidos.
À medida que a narrativa retrocede no tempo, conhecemos em detalhes a formação e atuação escravocrata de Teresa. Ela crescia “dona da sua chibatinha, a mãe a deixava levar alguns pretinhos para o quarto e brincar com eles como se fossem bonecos, bonecos vivos” (156). Casada com um traficante de escravizados, ela pertence a uma classe emergente brasileira que ascendeu socialmente à custa da exploração de corpos negros, da extrema violência a eles imposta e do apagamento de suas histórias – do que é expressivo o ato de lavar e desinfetar escravizados, assumido pelos seus pais “engordadores de escravos”. Em contrapartida, Teresa também não escapa da violência de gênero, já que seu corpo e suas maneiras são moldados pelos pais para melhor ofertar-se nas transações casamenteiras e seu destino acaba marcado por um marido bêbado que estupra e engravida a própria filha. Ainda assim, a fidalga reproduz sobre a filha a mesma educação recebida.
No caso do criado José, que a certa altura da história, revela a Teresa o seu verdadeiro nome, Maria Clara, o flashback vai da pormenorização lenta da violência sofrida na primeira infância em Coimbra – a fome, a miséria, a opressão, o sexismo do convento em que é internada, o primeiro estupro – a uma sumarização acelerada dos acontecimentos seguintes a essa dolorosa iniciação: a prostituição, o primeiro filho entregue na roda dos enjeitados, outros oferecidos ao rio dentro de sacos de pano, os abortos por todo tipo de métodos, pois “a gravidez baixava muito o valor de mercado de uma prostituta” (261), o enfrentamento da violência da polícia, o tráfico sexual para África e a partida para o Brasil com outra identidade: “a melhor maneira de escapar dos homens é tornar-se um deles (...) Era agora o criado, o ajudante do capataz (...). Seguia-o, acompanhava-o com a mercadoria nos navios negreiros e obedecia-lhe, surdo às súplicas dos escravos” (266).
A anacronia reencontra o início da história, assumindo, como no caso de Teresa, uma função completiva que embasa e complexifica significativamente a imagem inicial das personagens. Em última instância, esse regresso temporal projeta a formação e a definição do sujeito colonial como peça de uma engrenagem que funciona pelo enredamento interseccional de múltiplas e heterogéneas formas de dominação e exploração – sexual, econômica, étnica, religiosa, racial.
Tal paralelo entre as histórias de vida pregressas das personagens assume novos sentidos na situação calamitosa pós-naufrágio. Na praia intermitente, a fidalga, mulher de ação, comanda, ordena, resolve, sonegando emoções que a enfraqueceriam. José/Maria Clara, homem/mulher de sentimentos, observa, compadece-se de todos, ainda que reprima “os excessos de felicidade que o/a acometiam”, para não atrair a raiva alheia, mantendo-se “rasteiro, submisso, pernas encurvadas, prestável, servil” (143).
Essas posições antinômicas se movem quando as duas personagens se aliam para garantir a alimentação do menino preto, só então batizado de Henrique. José “foi deixá-lo, muito de mansinho, junto a Teresa que, sentada na areia, focada num ponto do mar muito lá ao fundo, deixava que o pretinho se aproximasse a medo do seu peito e José lhe desapertasse a camisa, e se aninhasse ali, no seu colo, sem que ela lhe tocasse ou reparasse nele” (210). A morte do filho vai atuar sobre o ânimo de Teresa e alterá-la devagarinho: “Será que devia ter-lhe dado de mamar, ela mesma em vez de delegar à ama (...). Não queria os peitos engelhados como o das pretas, educada que tinha sido para a vaidade, condicionada para a imodéstia” (100). A perda do seu menino e a progressiva conscientização da irrelevância de imitar a fidalguia europeia em sua nova condição funcionam como motivações para o seu surpreendente comportamento de alimentar e proteger um menino preto.
A união improvável entre a Fidalga e o Criado ganha força simbólica no episódio em que Teresa despe e descobre o corpo-mulher de José, ao lavá-lo para tirar o odor a sangue de um filhote de baleia, e então o criado revela a ela o seu verdadeiro nome, Maria Clara. Após conhecer a história de José, é Teresa que veste seu corpo com trajes femininos, ou melhor, com o vestido da Nossa Senhora de Todas as Angústias, dando à Maria humana e a sua vida de perdição o status de legítima santidade, ainda que tal ato seja explicado por Teresa como uma forma de esconder a afronta à moral e aos bons costumes que a mulher, ao vestir-se de homem, teria cometido.
Portanto, mesmo que o apego aos restos e aos despojos do navio persista, e em última instância, um padrão de poder colonial, as personagens se vêm obrigadas aos poucos a se desnudarem, transgredirem hierarquias para enfrentar juntas a fúria da natureza e garantir a sobrevivência. Essa aliança, porém, não é suficiente para superar o passado de violências extremas impostas e/ou sofridas pelas personagens. Muito pelo contrário, o romance como que solicita aos seus leitores um olhar para o horror do colonialismo e o desmascaramento da sua ideologia “‘exemplar’, lusotropicalista, com o seu famoso humanismo cristão a servir-lhe de referência e de caução” (Lourenço: 2015, 128).
Referências
CARVALHO, Ana Margarida de (2021 [2016]). Não se pode morar nos olhos de um gato. 5ª ed. Alfragide: Teorema.
EDER, Jens (2014). “Analyzing characters: creation, interpretation, and cultural critique”, in REIS, Carlos; HENRIQUES, Marisa das Neves (coords.). Revista de Estudos Literários, 4 (Personagem e Figuração), pp. 69-96.
LOURENÇO, Eduardo (2015). O labirinto da saudade. 10ª ed. Lisboa: Gradiva.