Agustina Bessa-Luís é a protagonista de O Livro de Agustina, nascido de um desafio lançado à escritora nos seus 80 anos. Começou por chamar-se Fotobiografia de Agustina (Bessa-Luís, 2014: 5), visto que a obra surge entremeada de diversas fotos da autora, de familiares, de amigos e escritores, ao longo dos anos. Na 3ª edição, O Livro de Agustina surge com um grafismo renovado, tendo sido acrescentados três retratos da escritora feitos por Alberto Luís, e adicionado, ainda, como remate da obra, o conto “Um Inverno Frio”.
Como o nome indica, estamos perante uma autobiografia a que se juntam fotografias e retratos, abrindo a obra a leituras intermediais que potencializam não só a estética do retrato, mas também a sobrevida e o imaginário em torno de Agustina Bessa-Luís.
Mais do que um “relato de uma vida feita por quem a viveu” (Reis, 2018: 35), a autobiografia não se limita a “transmitir ou a revelar a verdade: ajuda a produzi-la” (Bruss, 1974: 22, tradução minha). Deste modo, para além do conto, o livro divide-se em 12 capítulos e termina no 25 de Abril, ficando, portanto, incompleto e inacabado, potencializando, desta feita e uma vez mais, a lógica da figuração do retrato de uma mulher que escreveu como um destino: “«Cuidado com o êxito fácil». Eu não queria o êxito fácil, as opiniões, os favores, o agasalho da tertúlia e o calor da insubordinação, dos injustiçados, dos paladinos da razão. Eu só queria escrever, entrar no coração das pessoas e beber-lhes o sangue, avançando sempre, criando enredos e fazendo saltar os personagens das páginas" (67-68).
Entre a família e os lugares de eleição, tudo parece ser selecionado com o propósito de criar uma narrativa que legitime e credibilize a escritora que Agustina viria a ser. A auto-descrição surge quase sempre como consequência dos locais por onde passou e das pessoas que a rodearam e com quem viveu.
Em primeiro lugar, o avô materno, o avô Teixeira. Era “perdulário, amava as mulheres, o que é mais do que as desejar. Tinha por elas um respeito gracioso e sem adulação. Elas adoravam-no e faziam bem. Que há poucos homens que saibam amar as mulheres e merecê-las” (11); de seguida, o pai: “levado por um tio que tinha comércio de frutas na Baía, foi colocado no Rio, não sei se numa pastelaria onde o deixaram comer doces até os ter por inimigos para o resto da vida. Creio que me transmitiu o desinteresse pelas coisas doces, que eu prefiro sal e vinagre” (12). Para completar o retrato do pai, figuração travestida da própria Agustina, a autora conta que ele “tinha um feitio de pura ficção porque era gentil, sentimental, cheio de chiste e perigoso. Nunca me convenceu, mas ninguém me convenceu. Exceto Santo António, pelo que imagino. O que se imagina das pessoas é o que nos convence.” (19) A frase anterior revela, assim, o propósito desta autobiografia: produzir uma verdade literária que demonstre a escritora em todos os seus paradoxos e imperfeições.
Desde o tempo passado no Jardim Passos Manuel, no Porto, onde o pai era proprietário de um cinema, de teatro e palhaços, ficamos a saber que “o cinema, os livros e a D. Inês deram comigo em escritora. Tudo o que eu podia desfrutar do tempo infantil me parecia vulgar e estranhamente impróprio para mim. Eu amava a vida dos adultos, os seus perigos, mistérios, paixões, desgraças. O erotismo da infelicidade depressa o entendi como se fosse a vocação das pessoas” (36). Essa capacidade de perscrutar os caracteres e os indivíduos surge na infância, assim como a vocação para a escrita. O mesmo sucederá durante a juventude: “Continuava a ler e a ir ao cinema e a reparar nos rapazes que não reparavam muito em mim porque eu era do género sério e pouco amigável. Meu irmão dizia que eu era um génio, o que não ajudava nada.” Na verdade, Agustina revela-se a “escritora de raça” por que ficou conhecida pelos seus ditos e adágios: “Eu não preciso de amigos, preciso de quem me leia” (63).
Nota-se, portanto, o gosto aforístico e senatorial, a capacidade de escrever, o olhar acutilante, o destino de uma mulher escritora, de “«um gosto artístico seguro»” (97), genial que, em jeito – cum grano salis – memorialístico, vai talhando o seu retrato de um modo curioso e pouco convencional.
Às figuras do avô e do pai junta-se a mãe, de origem castelhana, e ainda os lugares de eleição: Amarante, o Douro, a Póvoa, Esposende e o Porto, em suma, o Norte de Portugal que serve, em jeito metonímico, para caracterizar a região e a obra agustiniana: o “Douro é a província mais capaz de paixões governadas e desgovernadas que há em Portugal. É duro de se viver, o Douro. Duro de fazer a vinha, de saldar as contas com o destino, a terra e os homens” (20).
Referências
BESSA-LUÍS, Agustina (2014). O Livro de Agustina. 3ª edição. Lisboa: Guerra e Paz.
BRUSS, Elizabeth (1974). “L’autobiographie considerée comme acte littéraire”, in Poétique, nº 17.
REIS, Carlos (2018). Dicionário de Estudos Narrativos. Coimbra: Almedina.
[publicado a 7-1-2026]